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As Sirenes do Tsunami - 11 de Março de 2011 - Grande Almanaque Mauj

Me lembro de ouvir as sirenes tocarem, em onze de março do ano de 2011.
O peito gelou, senti que algo muito ruim viria a acontecer.
As trombetas do apocalipse nipônico.

Nossos corações mudaram para sempre após aquele dia.
O chão tremeu com tanta e longa força, o mar despejou sua ira espumante pela terra, arrastando tudo em uma fúria afogada.

De repente um Japão que se partiu, quebrou por dentro e por fora.
A morte teceu um manto enorme sobre o país, fora e dentro de nós.

Pesadelo que se irradiou com todos de olhos abertos para ver.
E até hoje ecoa com o trauma e o terror do que se viveu e deixou-se de viver.
Marcas perenes na alma da gente, não tem como sair enquanto a mesma alma habitar este mesmo corpo.

Sentimos o fim tão próximo, nós que moramos nas terras japonesas.
De repente o travo do gosto da morte estava rançoso na boca e difícil de engolir.
A terra rachou, a água tudo inundou, uma usina se pôs a envenenar o peito deste pequeno mundo em ilhas.

Medo... desde que eu tinha saído do Brasil não tinha voltado a sentir.
A ilusão de um país seguro se desfez em brumas, pois se não é pela mão do homem, é pelo golpear da natureza que o mal chegou.


Sete anos atrás, seis minutos de duração. 16 mil mortos, 8 mil desaparecidos.
1230 réplicas do grande terremoto Touhoku.
Fukushima, terra tão bonita que virou Pripyat.
Reconstrução se fez e faz, mas que não cicatriza a alma de um povo, não.

Na época, não sei porque, resolvi gravar o áudio da primera vez que a sirene do alerta de tsunami tocou. Morava em Nagoya, região que não fora severamente afetada pelo terremoto (apenas tremeu, mas sem grandes incidentes).
Até hoje, quando volto a ouvir este áudio, um filme sombrio se desenrola em meu sentir, parece que sinto novamente toda a tensão, a tristeza, o medo que representou aquele março de 2011.


11 de março de 2011. 14:56 no horário de Tokyo.
Gravei o áudio das sirenes, quando tocaram pela primeira vez.
Ao fundo, o som da terra a tremer.
A hora que o grande pesadelo japonês começou... 

Comentários

)O(Lua Nua)O( disse…
É um paradoxo você escrever lindamente, e de forma impecável, sobre algo de tamanha tristeza.

O som da sirene corta a alma até de quem não estava aí, de quem não viveu um imenso terremoto.
Regina Rozenbaum disse…
Nossa Alê..de arrepiar...e uma lágrima sentida escorrendo me faz pensar em quantas vidas foram ceifadas...quantos pais chorando por seus filhos...e filhos por seus pais...tragédias assim só são elaboradas, a meu ver,com muita fé! Só elaboradas...jamais esquecidas! Bjao
Tathy Takahashi disse…
Lindo o seu texto. Não moro no Japão, mas me lembro de ter acordado para ir ao trabalho e visto a noticia do tsunami nos jornais daqui... passei o resto do dia com um mal estar de tanta tristeza acompanhando as notícias. E nunca chorei tanto, mesmo não estando aí, era inevitável. Ouvir essa sirene até me arrepia.
Anna disse…
Dias terriveis noites sem fim so que passou sabe como era er que acordar e ver toda aquela tragedia parecia nao ter fim
Na epoca morava na beira do mar e ficamos dobre alerta por uma semana
Que Deus conforte a todos
Denise disse…
Impossível ignorar a beleza irretocável de teu texto descrevendo uma tragedua como essa, impossível não sentir no peito a angústia da impotência em relação à fúria da natureza que arrastou tantas pessoas, casas e coisas, engolindo sonhos e o futuro de tanta gente. O som da sirene gélida corta os sentidos ....não posso sequer imaginar como foi ouvi-la. O mundo material se regenera como pode, mas é mesmo impossível que o espírito se refaça sem as marcas profundas que o transformaram ...

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