5.09.2017

Holocausto Brasileiro - Hospital Colônia, Auschwitz Mineiro - Grande Almanaque Mauj

Sempre ouvi os mineiros falando "trem de doido".
De onde viria tal frase...

A expressão teve origem com os trens de carga abarrotados de pessoas, levadas e lançadas ao maior hospício do Brasil Ditadura: o Hospital Colônia.

 Interno do Hospital Colônia.
Barbacena, MG.
Dormiam sobre palha, não haviam camas nem colchões.
Muitos morreram de frio, pelo rigoroso inverno local.


No Hospital Colônia (cidade de Barbacena, MG) entrava aquela gente que as gentes do poder não queriam por perto.
Pelas canetadas dos influentes da época, cidadãos comuns eram internados como loucos em um processo eugenista e sem critério médico algum.

(Imagens registradas pela equipe da revista O Cruzeiro, dos Diários Associados.
Fotojornalismo de Luis Alfredo Ferreira, 1961).

Internação forçada para pobres, gays, deficientes físicos/mentais, epiléticos, ébrios e mendigos.
Idem adversários políticos dos figurões locais ou as filhas de fazendeiros que engravidaram antes do casamento.
Também as empregadas domésticas, violentadas e prenhes de seus patrões.
Esposas, que estavam a ocupar o lugar das amantes e "já não tinham mais serventia"; as prostitutas que sabiam demais e a gente humilde que sabia de menos.

Nem crianças eram poupadas da clausura imposta.
Párias sociais.
Negros, em sua maioria.

Bebiam água de esgoto, 
muitas vezes a única disponível.

Com a conivência dos médicos, funcionários da instituição, igreja e população local, o Hospital Colônia tinha uma média de 16 mortes diárias.
Inanição, tortura com eletrochoque e afins, duchas escocesas geladíssimas, frio, insalubridade e envenenamento levaram a vida de mais de 60 mil internos, entre os anos 1930 a 1980.

O "chá da meia-noite", injeção letal largamente usada na instituição, era visto como solução final para os indesejados.
E a carga nos eletrochoques era grande, muitas vezes derrubou a rede elétrica de Barbacena por sobrecarga.

Muitos dos internos foram "emprestados" para trabalhos diversos, não-remunerados.


 Nem crianças eram poupadas.
A morte próxima. 
(Foto de Napoleão Xavier para o "Estado de Minas", 1979)

Não se respeitava nem mesmo a alma dos mortos.
Seus corpos inertes davam lucro, vendidos baratinho para inúmeras faculdades de todo o Brasil. Outros cadáveres tiveram como destino o ácido, ossos também eram lucrativos.
Comércio macabro que gerou quase um milhão de reais em lucro para os dirigentes deste hospital mineiro do terror.

Hospital Colônia, mimetização de um campo de concentração nazista em solo brasileiro.

 Holocausto Brasileiro
de Daniela Arbex
272 páginas 
Editora Geração

O desenrolar deste genocídio foi resgatado pela jornalista Daniela Arbex, do jornal Tribuna de Minas, em um excelente livro. Relatos dos sobreviventes e envolvidos traçam um panorama do que representou esta antecâmara da morte.

Vale a leitura. É importante conhecer a história, para que a mesma não se repita.
Li o livro e mais que recomendo.
A HBO apresentou um documentário sobre o local, assista.



2 comentários:

Anônimo disse...

nunca pensei que isso pudesse acontecer aqui em Minas mais ocorreu
estou chocada

ValLindinha disse...

não tenho coragem de assistir, nem de ler...