1.23.2017

A Ansiedade Que Nos Devora - Crica Viegas - Grande Almanaque Mauj

Ansiedade.
Sofremos sim, deste mal. 
Projeção de futuro, expectativas, sonhos, um mundo que te cobra, você que se cobra, planos, projetos, obrigações para um certo depois.
Um bolo angustiado no peito, coração e estômago.
Mente que "fala sem parar" e bem distante do agora, gerando mil idéias confusas e desconexas, em projeções alucinadas em fast foward.


Segue um texto, autoria da minha muito querida amiga Crica Viegas, psicanalista e uma mulher de uma imensa sabedoria, sobre este tema. Um panorama bem interessante sobre o comportamento ansioso. 
Leia e reflita, para começar a semana melhor.

No mundo de hoje estamos todos extremamente ansiosos. 
Temos dificuldades em viver o presente. 
A mente insiste em dar um pulinho ali no futuro a cada meia hora. 
Haja nervos.
Ou seja: qualquer plano, desde uma viagem até o cineminha do fim de semana pode gerar comichões, coceiras, azias e afins. Não é fácil pra muita gente viver assim.
Quando se passa ter mais consciência desses saltos emocionais em se quer agir como 'espias' do futuro, pode-se começar um exercício de tentar manter o espirito no aqui e no agora. Leva tempo, o tempo de cada um. Mas é algo que se pode aprender se houver desejo.
Ansiosos assumidos odeiam esperar. Haja coração. 
Fica-se ansioso só de pensar na palavra esperar. 
Uma gana de não perder as coisas que podem acontecer.
A mente fica num estado de alerta que pode se tornar insuportável até pro corpo. 
Gastrite, palpitações, falta de ar, problemas intestinais, enxaquecas, sintomas que às vezes castigam o corpo por anos. 
O corpo, morada física do eu, esse que é a sede da angústia, onde a ansiedade faz seu foco.
Para ter saúde emocional é necessário tentar se desapegar de tanta expectativa. 
Afinal, alguém vai conseguir acabar com a fome no mundo com essa sangria mental desatada?
A entrada num processo de análise pode ser algo que vai colocar o eu de frente com essa ansiedade. Há a possibilidade de aprender que se pode fazer algo diferente do que se exaurir de tanta expectativa.
O ansioso padece de achar que só tem uma única opção é não pode deixá-la escapar. A cada situação, o senso de urgência que a fantasia produz é da ordem de um desgaste absurdo e sofrido. Ao mesmo tempo, o medo daquela "única opção" dar errado pode deixar o sujeito paralisado.
E se é opção, é porque não é único. Optar é escolher. Decidir. 
Porque na verdade há opções. Escolhas. No plural. 
Se uma coisa não deu, outra dará. Se essa outra furar, encontra-se outra.
O que quer dizer isso na vida prática? Que dizer que uns planos podem dar certo, outros podem ficar engavetados, outros esperando decisões e comprometimento envolvidos.
E também é uma escolha decidir se não vamos mais ficar à beira de um ataque de nervos enquanto as coisas não acontecem, até porque tem coisas na vida que dependem de outros fatores e às vezes pouco pode ser feito além de esperar. Mas pode-se ler um bom livro ou apreciar a paisagem enquanto se espera.
"Deixemos de coisa" e cuidemos de não ser arrastados sem ter visto a vida por causa dessa ansiedade que nos devora.


Crica Viegas.

Um comentário:

rachel disse...

Esse texto da Crick me descreveu totalmente! Realmente essa ideia de espera é angustiante. E essa fixação ilusória de urgência, de resolução imediata também. Obrigada pelo texto!!